Protagonismo Oriental vs Ocidental


O que vem primeiro a sociedade ou o indivíduo? Fica fácil quando pensamos em sociedade como um "coletivo" de indivíduos. Mas e quando pensamos em sociedade como uma estrutura cultural unindo indivíduos com histórias, canções, comidas, brincadeiras, jogos, passatempos, vestimentas, língua, arte e principalmente, tempo. Como fica?

J.R.R.Tolkien defendia a tese que a cultura de um povo poderia ser independente da existência deste povo. Para provar seu ponto ele criou culturas completas de seres que não existem como Hobbits e Anões, Elfos e Orcs. 

A cultura seria então obra do pensamento humano, não da ação de indivíduos... na teoria, pois a prática sugere uma grande mistura dos dois. A noção de "percepção" que físicos como Albert Einstein e Werner Heisenberg, introduziram na nossa "realidade", postulando que muito do que temos como "claro e objetivo" depende única e exclusivamente de nossos pontos de vista.

Como observar um peixe num aquário. Dependendo da posição ele dirá um sentido em que o peixe está nadando. Se ele está indo, vindo, nadando para a direita ou esquerda. 

E podemos deixar a coisa ainda mais profunda se colocarmos a física de Erwin Schrödinger, onde acrescentaríamos que se não vermos o peixe, nem o aquário, potencialmente eles está movendo e não movendo ao mesmo tempo, existindo em diversas realidades, e só ao olhar para o fenômeno, vamos ter uma conclusão, não todas.

Com tudo isso fica, apesar de mais complexa a nossa questão, fácil de entender algo: a sociedade depende de indivíduos. Mais precisamente de suas percepções. Tudo por causa do tempo. O tempo "evolui" culturas, ou modifica-as para melhor agradar as gerações mais novas. Ou para melhor integrar as gerações mais novas.

O que se via como uma forma de comunicação com o passado, segundo os árabes e hindus, por isso imutável e venerável, se tornou uma forma de "determinar" a evolução de um povo. Uma mudança completa de significado. Como o que aconteceu com a palavra mito, que deixou de significar poesia, metáfora, e se tornou mentira. Ou dependendo do contexto, grandiosidade folclórica.

Então, com tudo isso, a noção de qualquer coisa que um indivíduo faça, passa pelo crivo de sua sociedade. Ela dirá se aquilo é válido ou não. Se aquilo é aceito, ou não. Por exemplo, expor jovens à perigos mortais, é visto em certas culturas como forma do jovem se mostrar apto à vida adulta; em outros locais a mera exposição do jovem ao trabalho, é crime; e em outras jovens são colocados a jornadas extenuantes de trabalho sem remuneração, sem direitos, apenas deveres, e é normal.

Um exemplo claro destas diferenças está na questão do "Oriente versus o Ocidente". Que durante século, se não milênios, foi tônica de calorosos debates devido às extremas diferenças entre os dois blocos. O Oriente sempre foi visto pelo Ocidente como exótico, fantasioso, peculiar. O Ocidente sempre foi visto pelo Oriente como exótico, bárbaro, indigno. 

Mas por quê tantas diferenças? Por causa do sentido de protagonismo em cada cultura. Vamos mergulhar nisso observando dois ícones populares da cultura oriental e ocidental, Miyamoto Musashi, o samurai e Clark Kent, o super-homem.


Musashi & Super-homem

Em termos de origem os dois dividem mais semelhanças do que se pode imaginar. Ambos personagens foram criados para jornais para a seção de divertimento. Ambos foram escritos durante o período de 1930-1940, ou seja, ambos viram a transformação do mundo na Segunda Grande Guerra.

E ambos foram inspirados nos mais altos e nobres conceitos de cada uma das suas sociedades. Musashi, de Eiji Yoshikawa exalta uma figura histórica e lendária que influenciou as artes marciais e o budismo. Super-Homem foi inspirado no filme de Fritz Lang, Metrópolis e sua jornada de buscar o entendimento entre razão e emoção, entre operários e patrões. Além das influências judaicas de seus criadores, Jerry Siegel e Joe Shuster.

Mas as semelhanças param por ai, na influência e origem das duas obras. Pois seus personagens são completamente distintos, a epítome de cada uma das culturas.

Musashi começa sua jornada como um homem bruto, uma rocha que lentamente vai se transformando em um diamante. E enquanto lapidado pela natureza, na forma de ensinamentos, lutas, vitórias e fracassos, ele encontra um novo significado social para si. Literalmente, seu lugar no mundo.

Super-homem é um estrangeiro na sociedade humana, ele vem de um planeta morto. Aqui ele vê, desde seus primeiros momentos, as injustiças e mazelas do ser humano. Assim como sua bravura e beleza. Ele decide por ajudar às pessoas. Usando disfarces e sua força prodigiosa, ele lutar contra elementos deviantes e criminosos da sociedade, predadores daqueles que não podem se defender.


Musashi fala sobre o indivíduo e seu caminho, tortuoso, para se encaixar na sociedade dando o melhor de si, enquanto lapida este melhor, para si mesmo. 

A jornada é: o individuo se desenvolve, a sociedade o absorve, o individuo cresce, a sociedade cresce, o individuo encerra sua jornada, a sociedade está mais forte.

Super-homem fala sobre o indivíduo olhar para a sociedade e julgá-la, diante de princípios elevados. A partir disto agir, para corrigir os erros e inspirar os acertos.

A jornada é: a sociedade é como ela é, cabe ao indivíduo julgar o que fazer com ela. Para isso há princípios elevados, maiores que a sociedade, e que fundamenta suas leis. Sob esta luz o indivíduo age e com isso ele pode ser parte do problema ou da correção.


No Oriente a sociedade é parte indelével do indivíduo. No Ocidente não, ela é uma matriz aonde o indivíduo irá se encaixar. A partir do encaixe ele pode influenciar na sociedade. No Oriente para influenciar na sociedade o indivíduo deve mudar a si mesmo e atingir o reconhecimento. No Ocidente, é a fama que faz o reconhecimento.

O maior sacrifício do herói Oriental é o amor, pois o amor é algo egoísta, é algo que pode colocar o indivíduo contra a sociedade. O maior sacrifício do herói Ocidental é a própria sociedade... através de sua individualidade o indivíduo pode simplesmente se esquecer do restante das pessoas, da comunidade e se tornar um pária, uma parasita, um câncer.

O problema entre Oriente e Ocidente é que em muitos caos a culturas são opostas. No Oriente obedecer a sociedade é o certo a fazer, renegar seus desejos e vontades é a parte tortuosa, mas certa do caminho. No Ocidente é o contrário, obedecer a si mesmo é o certo a fazer. Renegar a sociedade é a parte tortuosa, mas correta.

Musashi passa pelos dois casos, ele renega o amor e segue os anseios da sociedade que o obriga a um último e mortal duelo. Super-homem ao contrário vive a plenitude do amor, e em seus momentos mais tenros ensaia deixar a vida pública para se dedicar apenas a esposa e aos filhos.

O recurso que o autor usa para manter Musashi sempre em cheque foi colocar não só uma personagem cegamente apaixonada pelo samurai como também um aprendiz, uma "quase família" correndo atrás do herói que os renega. Super homem, mais uma vez é o contrário, sempre haverão vilões, ameaças e perigos. Tudo para exigir que o herói deixe sua amada e se coloque diante do perigo.

O que ameaça Musashi é a individualidade. O que ameaça Super-homem é a sociedade.

E no que tange a religião também temos opostos. Entendendo a religião aqui como "estrutura social". 

Musashi tem a presença constante e fundamental de um monge. Sem contar que a espiritualidade é parte constante e fundamental do herói. Super-homem está além de qualquer religião, o que o guia são princípios filosóficos universais, sua honra e valor. A espiritualidade simplesmente não é um dos temas de Super-homem, ela inexiste. 


Com isso tudo vemos como somos separados por aquilo que pensamos e acreditamos. Campbell esperava o surgimento de uma "sociedade global" uma "cultura humana". De certa forma caminhamos para isso, um integração de todas as culturas. Hoje o Oriente absorveu muito da cultura Ocidental e vice versa.

Cada vez mais vemos as barreiras caírem e as sociedades se reconhecerem como uma coisa só, uma real aldeia global. Mas ainda irá levar um tempo, algumas gerações e muito, muito trabalho de todos os lados. 

Trabalho para Super-homem nenhum botar defeito! 

Tags:  ensaios
  • 01/10/2017
  • 30/09/2017

S.

  • 02/10/2017

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